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notas à imprensa

Assuntos Globais da Mulher

Soluções para desafios globais requerem participação das mulheres por Embaixadora para Assuntos Globais da Mulher Melanne Veveer
Embaixador dos EUA Thomas Shannon, a ministra Iriny Lopes e a embaixadora geral para Assuntos Globais da Mulher Melanne Verveer, 17 de fevereiro de 2011, em Brasília

Embaixador dos EUA Thomas Shannon, a ministra Iriny Lopes e a embaixadora geral para Assuntos Globais da Mulher Melanne Verveer, 17 de fevereiro de 2011, em Brasília

Em abril de 2009, Melanne Verveer foi nomeada embaixadora-geral para Assuntos Globais da Mulher, cargo criado pelo presidente dos EUA, Barack Obama, para promover o empoderamento da mulher na política externa dos EUA. Nesta entrevista, ela compartilha seu entusiasmo na luta pelo empoderamento político, econômico e social da mulher. 

P: A senhora é a primeira embaixadora-geral para Assuntos Globais da Mulher. Por que é tão importante que essas questões sejam abordadas agora?

MV: É reconhecido atualmente que não podemos resolver nossos desafios globais, sejam eles referentes a meio ambiente, governança, política econômica, seja a segurança, a não ser com a participação integral das mulheres. Devemos transferir as “questões das mulheres” da periferia para o centro e reconhecer que as questões não dizem respeito apenas ao papel das mulheres, mas à espécie de mundo que queremos criar. Quanto mais as mulheres participam, são bem-sucedidas e ajudam a fazer a diferença, mais todos se beneficiam — homens e mulheres, meninos e meninas.

P: Por que a participação das mulheres é tão vital para o bem-estar de todas as sociedades?

MV: Há uma quantidade enorme de dados que relacionam investimentos nas mulheres com redução da pobreza — até mesmo com diminuição da corrupção — fato que devemos encarar com muita seriedade. Da mesma forma, há estudos sobre as consequências da desigualdade entre gêneros. Por exemplo, o Fórum Econômico Mundial publica um relatório anual chamado Relatório sobre o Índice de Desigualdade de Gênero (Gender Gap Index). Ele mede o progresso de homens e mulheres em termos de participação e oportunidades na economia, nível educacional, participação política, saúde e sobrevivência. Países em que homens e mulheres apresentam mais igualdade de desempenho em todas essas áreas, estão em condições muito melhores. Nos países em que a desigualdade é maior, a história é bem diferente. Isso tem sido comprovado em diversos estudos. Devemos prestar atenção aos dados quantitativos, e o que eles nos informam é que essa é a coisa certa a fazer, investir nas mulheres e dar-lhes oportunidade de participar integralmente na sociedade.

P: Em 1995, a histórica Quarta Conferência Mundial da ONU sobre Mulheres foi realizada em Pequim. Quais foram os ganhos, e eles ainda são pertinentes?

MV: A conferência reuniu 189 países para analisar o progresso das mulheres e adotar especificamente uma Plataforma para Ação. Essa Plataforma para Ação se concentrou em várias áreas cruciais, inclusive acesso das mulheres à educação, assistência médica, participação econômica e política; a capacidade das mulheres para não serem mais vítimas de violência; para ter direitos legais; a situação da menina; o papel das mulheres nas sociedades em conflito; e o papel que desempenham na paz e na segurança. Foi um plano importante e ambicioso que os Estados Unidos e 188 outros países assinaram, com o compromisso de voltar ao seu país para traçar o progresso de mulheres e meninas. Isso foi importante naquele momento e continua a ser extremamente significativo hoje. Quinze anos depois, a Plataforma para Ação ainda é o plano pelo qual muitos de nossos países, ONGs e outras entidades medem o avanço das mulheres. Houve muito progresso, mas ainda há desafios. Leis foram aprovadas. Nem todas foram implementadas, mas muita coisa mudou para melhor.

P: Em que áreas foram feitos os maiores progressos e em que outras o mundo ainda tem trabalho a fazer?

MV: A educação das meninas encontra-se em um patamar bem melhor do que aquele em que estava quando a Plataforma de Pequim foi adotada, mas ainda não chegamos ao patamar em que deveríamos estar. Embora mais e mais meninas cursem o ensino fundamental, os números ainda são desanimadores em termos de acesso ao ensino médio. O investimento em uma menina determina qual será o seu futuro — e o provável futuro de sua família — suas possibilidades econômicas, sua saúde e a educação de seus filhos. Mais mulheres estão sendo eleitas para parlamentos, mas os números ainda estão abaixo do ideal, visto que as mulheres representam metade da população do mundo e é importante ter suas experiências e seus talentos incluídos na formulação de políticas.

Do ponto de vista econômico, as mulheres estão participando de forma mais significativa. O microcrédito, por exemplo, teve um impacto de transformação, tirando os mais pobres da pobreza e gerando meios de subsistência para que as pessoas possam se sustentar, bem como às suas famílias. Foram aprovadas leis referentes à violência contra a mulher, reforma do Direito da Família e outras questões espinhosas. Essas leis agora devem ser implementadas e postas em prática de modo mais eficaz. Há um registro definitivo de progresso. Os governos, a sociedade civil e aqueles que traçaram esse caminho rumo a um futuro melhor podem se orgulhar disso com razão, mas temos de manter o passo para alcançar nossas metas.

P: Entre os novos assuntos globais da mulher quais são os mais importantes?

MV: Ainda temos uma agenda a cumprir. Temos de ser mais criativos. Um dos desafios é apresentar novas ferramentas, ferramentas que sejam mais eficazes para aumentar o progresso econômico. O microcrédito é uma das grandes ferramentas financeiras, mas necessitamos de maior inclusão financeira: poupança e outros modos pelos quais os pobres possam se garantir contra cataclismos de um tipo ou de outro. As ferramentas financeiras, assim como a tecnologia, podem trazer soluções criativas. Quanto a mim, penso que a tecnologia móvel tem potencial de ser tão transformadora quanto o microcrédito. Celulares são mais acessíveis aos pobres. Aplicativos de celulares estão sendo desenvolvidos para ajudar a melhorar a assistência médica. O telefone celular está sendo usado para operações bancárias, alfabetização, salvaguardar as mulheres da violência e criar oportunidades econômicas.

Houve e ainda há um componente ambiental na Agenda de Pequim, mas as mudanças climáticas em si não foram especificadas. É algo que viemos a entender melhor durante o tempo que passou desde 1995. Nisso, mais uma vez, vemos o papel a ser exercido pelas mulheres, especialmente nas regiões mais afetadas pelas mudanças climáticas e vulneráveis a desastres naturais como secas ou enchentes. Precisamos envolver as mulheres como agentes de adaptação e mitigação.

Um exemplo importante refere-se a fogões a lenha. O carvão negro gerado por fogões a lenha — nos quais milhões de pobres cozinham — é prejudicial à saúde de milhões de pessoas. A Aliança Global para Fogões com Energia Limpa está criando um mercado para fogões com baixa emissão, a fim de ajudar a reduzir os impactos danosos do carvão negro à saúde e ao meio ambiente. É uma questão de empoderamento econômico, porque vender e manter fogões é um novo setor verde, especialmente para mulheres. O ato de cozinhar não é o principal fator da mudança climática, mas fogões de baixa emissão podem melhorar um de seus aspectos.

P: Que papel os homens podem exercer para assegurar o empoderamento e o avanço das mulheres no mundo?

MV: Os homens têm um papel central, fundamental e importante a exercer. O progresso das mulheres nunca veio por meio exclusivamente dos esforços femininos. Não podemos resolver um dos maiores desafios enfrentados pelas mulheres — a desigualdade das mulheres no mundo todo, o flagelo da violência contra elas — a menos que os homens se envolvam nas soluções. O modo como os meninos são criados, a imagem de como deve ser um homem e como isso é apresentado são oportunidades para desenvolver bons hábitos na próxima geração. Conhecemos o papel crucial que os líderes religiosos — na maioria homens — podem exercer. Necessitamos de vontade política e que líderes masculinos esclarecidos nos níveis mais altos do governo, nas instituições multilaterais e nas empresas se tornem participantes integrais no avanço do empoderamento das mulheres.

P: Os Estados Unidos não têm um histórico perfeito sobre questões da mulher. Nosso Congresso tem uma porcentagem menor de mulheres em cargos eletivos do que alguns parlamentos estrangeiros e não ratificou a Convenção da ONU sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (Cedaw). A violência doméstica e o tráfico de seres humanos representam problemas nos Estados Unidos. Os Estados Unidos estão em posição de liderar o mundo no empoderamento da mulher?

MV: Temos muito trabalho a realizar em âmbito interno, assim como todos os outros países. Em nenhum país do mundo há igualdade entre homens e mulheres. Mas penso que o fato de tratarmos de muitos de nossos problemas, ou de tentar tratá-los, certamente tem ressonância no âmbito internacional. Criamos uma legislação para combater a violência contra as mulheres, posta em vigor pela primeira vez na década de 1990. Nossa lei sobre tráfico humano só foi aprovada em 2000, mas conseguimos, e a legislação é um modelo para o mundo. Isso pode ajudar outros países a ver o rumo que tomamos para enfrentar os desafios, o modo como criamos coalizões e por que definimos prevenção, ação penal e proteção como inibidores na lei sobre violência contra a mulher e na lei sobre tráfico (Lei de Proteção às Vítimas da Violência e do Tráfico, de 2000).

Muitas vezes falo das mulheres que, em 1848, viajaram para participar da primeira convenção sobre igualdade de direitos em Seneca Falls, em Nova York. E, com frequência, penso no diário de uma jovem que fez uma retrospectiva do caminho que escolheu, que foi sair de casa, entrar em uma diligência e fazer aquela viagem. Ela fez isso porque nos Estados Unidos, naquela época, as mulheres não podiam votar. Ela não podia ficar com seus escassos ganhos — se os tivesse. Não tinha acesso à educação formal; não podia se divorciar caso tivesse um casamento terrível. Ela sabia que a vida podia ser melhor e fez aquela viagem para a convenção sobre igualdade de direitos sem saber, como disse, se mais alguém estaria naquela estrada. Sabemos o quanto progrediu nosso país. Ainda estamos naquela estrada. Mulheres de todas as partes do mundo estão nessa viagem e necessitamos umas das outras. E — tão importante quanto isso — precisamos de bons homens que se unam a nós, pois eles também viajaram para a Convenção sobre Igualdade de Direitos. Podemos estar em diferentes pontos nessa viagem. Os Estados Unidos percorreram um longo caminho desde 1849, quando aquela jovem decidiu fazer a viagem para Seneca Falls, mas ainda temos muito a percorrer. Em todas as partes do mundo, mulheres que enfrentam situações difíceis precisam traçar o caminho para o progresso. Não somos perfeitos, mas nos engajamos nessa questão e, de muitas formas, tivemos êxito e podemos ajudar outros países a enfrentar desafios semelhantes.