Notícias de Washington
Aumento dos preços ameaça segurança alimentar
Charlene Porter | Da equipe de redação | 17 de junho de 2011
Agricultor indiano conduz boi após um dia nos campos. Índia presenciou aumento de dois dígitos nos preços dos alimentos em 2010, um ônus para muitos pobres
Washington — As perspectivas para a produção agrícola e o suprimento de alimentos no mundo são positivas no futuro próximo, mas para mais adiante o relatório Perspectivas Agrícolas 2011-2020 prevê preços mais altos e volatilidade persistente no suprimento e nos preços das commodities.
Divulgado em 17 de junho pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e a Organização para Alimentação e Agricultura (FAO), o relatório afirma que esta boa temporada de colheita se refletirá em preços mais baixos das commodities após os altos níveis alcançados no início do ano. Mas no decorrer da próxima década, os preços dos grãos deverão sofrer uma majoração de 20%, e os de carne deverão chegar aos 30%.
"Períodos prolongados de preços elevados dificultam o alcance das metas de segurança alimentar global, fazendo com que os consumidores de baixa renda apresentem maior risco de desnutrição", conforme aponta o resumo do relatório.
Mas políticas sólidas e investimentos adequados dos governos podem evitar a escassez e a desnutrição, segundo Jacques Diouf, diretor-geral da FAO. "A principal solução para o problema será incrementar os investimentos agrícolas e intensificar o desenvolvimento rural nos países em desenvolvimento, onde vivem atualmente 98% dos famintos e onde é esperado um aumento populacional de 47% no decorrer das próximas décadas", afirmou Diouf.
A alta dos preços tem um lado positivo para os produtores de alimentos, mas não para os consumidores. De acordo com o relatório, as perspectivas de preços fortes podem sinalizar para o setor agrícola que vale a pena investir no aumento da produtividade e na expansão da produção.
As incertezas futuras quanto à segurança alimentar não surpreendem os especialistas da área. Há dois anos na cúpula do G-8 na Itália, os líderes mundiais tomaram conhecimento das possíveis dificuldades no futuro e se comprometeram a "agir na escala e velocidade necessárias para alcançar a segurança alimentar global". A Cúpula Mundial sobre Segurança Alimentar em 2009 também destacou as necessidades e adotou um conjunto de princípios para orientar as ações futuras.
Nos Estados Unidos, o governo Obama reagiu com a iniciativa Alimentar o Futuro, que enfatiza a necessidade de trabalhar em parcerias internacionais.
"A segurança alimentar deve continuar a ter um papel relevante na agenda dos fóruns globais, regionais e nacionais para catalisar a redução equitativa da pobreza necessária para o impacto sustentado", segundo o resumo da iniciativa. O governo empenhou cerca de US$ 3,5 bilhões em desenvolvimento agrícola e segurança alimentar nos últimos três anos, e esse investimento atraiu o apoio de outros doadores, totalizando mais de US$ 18,5 bilhões.
O investimento em agricultura de pequena escala para aumentar os rendimentos e melhorar o acesso aos mercados é uma das principais estratégias do plano. O objetivo determinante é reduzir pela metade até 2015 o número de pessoas vivendo em pobreza extrema e passando fome.
Um bilhão de pessoas, um sexto da população mundial, sofre de fome crônica, e mais de 3,5 milhões de crianças morrem a cada ano de desnutrição. Outros tantos milhões não conseguem se desenvolver bem, chegando à idade adulta com capacidade física ou mental reduzida, que inibe seu potencial e a possibilidade de contribuir para suas famílias, comunidades e nações.