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Notícias de Washington

Secretária Hillary Clinton: “Não há mais volta para a Síria”

21 Junho 2011

Em artigo originalmente publicado em 18 de junho no jornal Asharq Al-Awsat, a secretária de Estado, Hillary Rodham Clinton, condena a recente e violenta onda de repressão na Síria encabeçada pelo governo do presidente Bashar Assad contra seus próprios cidadãos e conclama pela transição para a democracia.

Segue-se a íntegra do texto do artigo assinado pela secretária:

“Não há mais volta na Síria”
Hillary Clinton

Com a continuidade da violenta repressão na Síria, o presidente Assad mostra que está mais interessado em seu próprio poder do que em seu povo.

O mundo une-se aos sírios para lamentar as mortes de muitos inocentes, inclusive de um menino de 13 anos, brutalmente torturado e mutilado. Aproximadamente 1.300 sírios foram mortos desde o início dos protestos. Muitos milhares mais foram presos e sofreram abusos. As forças de segurança da Síria cercaram comunidades e cortaram a eletricidade, as comunicações e a internet. A atividade econômica desacelerou, o país está cada vez mais isolado e a cada dia aumenta a frustração de seus cidadãos.

Em seu discurso de 19 de maio, o presidente Obama repetiu as exigências básicas e legítimas dos manifestantes: o governo de Assad deve parar de atirar em manifestantes, permitir o protesto pacífico, soltar prisioneiros políticos, suspender as prisões ilegais, permitir o acesso a monitores de direitos humanos e iniciar um diálogo inclusivo para promover a transição democrática. Disse ainda que o presidente Assad pode liderar a transição ou deixar o caminho livre.

Está cada vez mais claro que o presidente Assad fez a sua escolha. Mas embora a brutalidade contínua possa permitir a ele adiar a mudança em curso na Síria, será impossível revertê-la.

À medida que os vizinhos da Síria e a comunidade internacional reagem a essa crise, devemos nos orientar pelas respostas a várias perguntas cruciais: Por que ela surgiu? O que a repressão revela sobre o presidente Assad e seu regime? E que rumo tomará a Síria daqui para frente?

Primeiramente, não há qualquer dúvida sobre a natureza dos protestos na Síria.

Assim como os tunisianos, os egípcios, os líbios e outros povos do Oriente Médio e Norte da África, o povo sírio está exigindo os direitos universais que há muito lhes são negados e rejeitando um regime que governa utilizando o medo, desperdiça seus talentos pela corrupção e nega a seus cidadãos a dignidade de ter voz ativa sobre seu próprio futuro. Eles estão se organizando, inclusive por meio de comitês de coordenação local, e estão se recusando a voltar atrás mesmo em face da violência revoltante.

Se o presidente Assad acredita que os protestos são fruto de instigadores estrangeiros – como alega seu governo – ele está errado. É verdade que alguns soldados sírios foram mortos, e lamentamos a perda dessas vidas também. Mas a grande maioria das vítimas é de civis desarmados. Ao proibir a presença de jornalistas e observadores estrangeiros, o regime busca esconder esses fatos.

Segundo, o presidente Assad mostra sua verdadeira face ao adotar a tática repressora de seu aliado Irã e ao colocar a Síria a caminho de um Estado pária.

Ao seguir a orientação do Irã, o presidente Assad está colocando a si próprio e seu governo no lado errado da história. Ele aprenderá que a legitimidade resulta do consentimento do povo e não pode ser forjada por meio de balas e cassetetes.

A violenta repressão exercida pelo presidente Assad abalou suas alegações de ser reformista. Durante anos, fez promessas e mais promessas, mas o que importa são suas ações. Um discurso, não importa o quanto tenha sido devidamente aplaudido por apologistas do regime, não mudará o fato de que os sírios, apesar da crença alardeada de que vivem em uma república, jamais tenham tido a oportunidade de eleger livremente seus líderes. Esses cidadãos querem ver a real transição para a democracia e para um governo que respeite seus direitos e aspirações universais.

Se o presidente Assad acredita que pode agir impunemente porque a comunidade internacional espera sua cooperação em outras questões, ele também está equivocado. Ele e seu regime certamente não são indispensáveis.

Uma Síria unificada, pluralista e democrática poderia exercer um papel positivo e de liderança na região, mas sob o governo do presidente Assad, o país está se tornando cada vez mais uma fonte de instabilidade. O fluxo contínuo de refugiados em direção à Turquia e ao Líbano e as tensões atiçadas em Golã dissipam a noção de que o regime é um reduto de estabilidade regional que deva ser protegido.

Finalmente, a resposta para a pergunta mais importante de todas – o que isso significa para o futuro da Síria? – está cada vez mais clara: Não há volta.

Os sírios reconhecem a violência como sinal de fraqueza de um regime que governa por coerção, não por consentimento. Eles venceram seus temores e abalaram as bases desse sistema autoritário.

A Síria se encaminha para uma nova ordem política — e o povo sírio deve ser o responsável por sua construção. Eles devem insistir na necessidade de prestação de contas, mas resistir a tentações de vingança ou represália que poderiam dividir o país e, em vez disso, se unir para construir um país democrático, pacífico e tolerante.

Levando em consideração as respostas a todas essas questões, os Estados Unidos optou por se colocar ao lado do povo sírio e de seus direitos universais. Condenamos o descaso do governo de Assad pela vontade de seus cidadãos e a interferência insidiosa do Irã.

Os Estados Unidos já impuseram sanções sobre as autoridades sírias, inclusive sobre o presidente Assad. Nossos alvos são principalmente os líderes da repressão, não o povo sírio. Recebemos com satisfação as decisões da União Europeia de impor suas próprias sanções e do Conselho de Direitos Humanos da ONU de investigar os abusos. Os Estados Unidos continuarão a coordenar em estreita colaboração com nossos parceiros na região e no mundo todo o aumento da pressão sobre o governo de Assad para isolá-lo.

O povo sírio não abandonará suas reivindicações por dignidade e um futuro livre de intimidação e medo. Eles merecem um governo que respeite seu povo, trabalhe para construir um país mais estável e próspero e não precise se apoiar na repressão interna e no antagonismo externo para manter seu poder. Eles merecem uma nação unificada, democrática e agente de estabilidade e progresso. Isso seria bom para a Síria, para a região e para o mundo.