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Discurso do presidente Obama à nação sobre a economia dos EUA
25 de julho de 2011
CASA BRANCA
Escritório do Secretário de Imprensa
DISCURSO DO PRESIDENTE À NAÇÃO
Salão Leste
21h01 (horário de verão da Costa Leste dos EUA)
PRESIDENTE: Boa noite. Esta noite quero falar sobre o debate que estamos travando em Washington sobre a dívida nacional — um debate que afeta diretamente a vida de todos os americanos.
Durante a última década, gastamos mais dinheiro do que recebemos. Em 2000, o governo teve superávit orçamentário. Mas em vez de usá-lo para pagar nossa dívida, o dinheiro foi gasto em trilhões de dólares em novas reduções fiscais, enquanto duas guerras e um caro programa de medicamentos sob prescrição foram simplesmente adicionados ao cartão de crédito da nação.
Por consequência, o déficit já estava a caminho de atingir US$ 1 trilhão quando tomei posse. Para piorar, a recessão ocasionou menos entrada de dinheiro e exigiu que gastássemos ainda mais — em reduções fiscais para famílias de classe média com o objetivo de estimular a economia; em seguro-desemprego; em ajuda aos estados para evitar que mais professores, bombeiros e policiais fossem demitidos. Essas medidas emergenciais também aumentaram o déficit.
Todas as famílias sabem que uma dívida pequena no cartão de crédito é controlável. Mas se continuarmos nesse rumo, o aumento cada vez maior da nossa dívida poderá nos custar empregos e causar sérios danos à economia. Mais dólares arrecadados com impostos serão destinados a pagar juros sobre nossos empréstimos. Haverá menos probabilidade de empresas abrirem lojas e contratarem trabalhadores em um país que não consegue equilibrar suas contas. As taxas de juros poderão subir para quem toma dinheiro emprestado — o proprietário de uma casa com hipoteca, o estudante com empréstimo universitário, a pequena mercearia que quer se expandir. E não teremos dinheiro suficiente para fazer investimentos que geram empregos em áreas como educação e infraestrutura ou para pagar programas vitais como o Medicare e o Medicaid.
Como nenhum dos partidos está isento de culpa pelas decisões que levaram a esse problema, os dois partidos têm a responsabilidade de resolvê-lo. Nos últimos meses, é o que temos tentado fazer. Não quero aborrecê-los com os detalhes de cada plano ou proposta, mas, basicamente, o debate está centrado em torno de duas abordagens diferentes.
A primeira abordagem diz que devemos viver dentro de nossos recursos fazendo cortes sérios e históricos nos gastos governamentais. Vamos fazer cortes nos gastos internos ao nível mais baixo desde que Dwight Eisenhower foi presidente. Vamos cortar gastos do Pentágono com defesa em centenas de bilhões de dólares. Vamos cortar o desperdício e as fraudes em programas de saúde como o Medicare — e, ao mesmo tempo, vamos fazer pequenos ajustes de modo que o Medicare continue a servir às futuras gerações. Finalmente, vamos pedir aos americanos mais ricos e às maiores empresas que abram mão de algumas isenções no código tributário e de deduções especiais.
Essa abordagem equilibrada pede que todos cedam um pouco sem exigir que ninguém se sacrifique demais. Isso reduziria o déficit em cerca de US$ 4 trilhões e nos colocaria no caminho de liquidar nossa dívida. E os cortes não ocorreriam de forma tão abrupta a ponto de ser um empecilho à nossa economia ou um impedimento para ajudar pequenas empresas e famílias de classe média a voltar à estabilidade imediatamente.
Essa abordagem também é bipartidária. Embora muitos de meu próprio partido não estejam contentes com os penosos cortes desse plano, há vários dispostos a aceitá-los se o ônus for compartilhado de maneira justa. Embora os republicanos possam querer ver cortes mais profundos e nenhuma receita, há muitos no Senado que disseram: “Sim, estou disposto a colocar a política de lado e considerar essa abordagem porque tenho interesse em resolver o problema.” E num gesto louvável, esse é o tipo de abordagem que o presidente da Câmara dos Deputados, o republicano John Boehner, esteve elaborando comigo nas últimas semanas.
A única razão pela qual essa abordagem equilibrada não está a caminho de tornar-se lei agora é porque um número significativo de republicanos no Congresso insiste em uma abordagem diferente — uma abordagem apenas de cortes — uma abordagem que não pede nenhuma contribuição aos americanos mais ricos ou às maiores empresas. E como não é pedido nada às pessoas de renda mais alta, essa abordagem cobriria o déficit somente com cortes mais severos nos programas que todos temos interesse — cortes que colocam um ônus maior às famílias de trabalhadores.
Portanto, o debate neste momento não é se precisamos fazer escolhas difíceis. Democratas e republicanos concordam sobre o valor necessário da redução do déficit. O debate é sobre como isso deve ser feito. A maioria dos americanos, independentemente do partido político, não entende como podemos pedir a um cidadão idoso que pague mais pelo seu Medicare antes de pedir ao dono de um jato executivo ou às empresas petrolíferas que abram mão de isenções fiscais que outras empresas não têm. Como podemos pedir a um estudante para pagar mais pela faculdade antes de pedir a gestores de fundos de hedge que parem de pagar impostos com taxas menores do que a de suas secretárias? Como podemos reduzir os recursos para educação e energia limpa antes de pedir a pessoas como eu para abrir mão de isenções fiscais de que não precisamos e não pedimos?
Isso não é correto. Não é justo. Todos nós queremos um governo que viva dentro de seus recursos, mas ainda há coisas pelas quais precisamos pagar como país — coisas como novas estradas e pontes; satélites meteorológicos e inspeção alimentar; serviços para veteranos e pesquisa médica.
E tenham em mente que em uma abordagem equilibrada, os 98% de americanos que ganham abaixo de US$ 250 mil não teriam nenhum aumento de impostos. Nenhum. De fato, quero estender o corte de impostos em folha de pagamento para famílias de trabalhadores Em uma abordagem equilibrada estamos pedindo aos americanos cuja renda subiu mais durante a última década — milionários e bilionários — que compartilhem do sacrifício imposto a todos. E penso que esses americanos patriotas estão dispostos a cooperar. De fato, nas últimas décadas, eles contribuíram toda vez que aprovamos um acordo bipartidário para reduzir o déficit. A primeira vez que foi aprovado um acordo, um predecessor meu defendeu uma abordagem equilibrada dizendo o seguinte:
“Vocês preferem reduzir déficits e taxas de juros aumentando a renda daqueles que não estão pagando agora sua cota justa ou preferem aceitar déficits orçamentários maiores, taxas de juros maiores e mais desemprego? Penso que sei sua resposta.”
Essas palavras foram ditas por Ronald Reagan. Mas hoje, muitos deputados republicanos se recusam a considerar esse tipo de abordagem equilibrada — uma abordagem que foi tentada não apenas pelo presidente Reagan, mas também pelo primeiro presidente Bush, pelo presidente Clinton, por mim e por muitos democratas e republicanos do Senado dos Estados Unidos. Portanto, estamos em um impasse.
O que torna este impasse atual tão perigoso é que foi atrelado a algo conhecido como teto da dívida — um termo que a maioria das pessoas fora de Washington provavelmente nunca ouviu antes.
Entendam — o aumento do teto da dívida não autoriza o Congresso a gastar mais dinheiro. Simplesmente dá a nosso país a capacidade de pagar as contas que o Congresso já acumulou. No passado, aumentar o teto da dívida era rotineiro. Desde os anos 1950, o Congresso sempre o aprovou e todos os presidentes o assinaram. O presidente Reagan fez isso 18 vezes. George W. Bush fez isso sete vezes. E temos de fazê-lo até a próxima terça-feira, 2 de agosto, ou então não poderemos pagar todas as nossas contas.
Infelizmente, durante as últimas semanas, os deputados republicanos disseram basicamente que a única maneira de votarem para evitar o primeiro calote da história dos Estados Unidos é se os demais concordem com sua abordagem somente de cortes profundos de gastos.
E se isso acontecer e ficarmos inadimplentes, não teríamos dinheiro suficiente para pagar todas as nossas contas — contas que incluem cheques mensais da Previdência Social, benefícios aos veteranos e contratos do governo assinados com milhares de empresas.
Pela primeira vez na história, a classificação de crédito AAA de nosso país seria rebaixada, deixando os investidores no mundo todo imaginando se ainda vale a pena investir nos Estados Unidos. As taxas de juros de cartões de crédito, hipotecas e empréstimos para compra de carros subiriam nas alturas, o que significaria uma alta imensa de impostos recaindo sobre o povo americano. Arriscaríamos a desencadear uma profunda crise econômica — desta vez causada quase que inteiramente por Washington.
Portanto, deixar de pagar nossas dívidas é um resultado imprudente e irresponsável desse debate. E líderes republicanos afirmam que concordam com a necessidade de evitar o calote. Mas a nova abordagem divulgada hoje pelo presidente da Câmara, Boehner, que ampliaria temporariamente o teto da dívida em troca de cortes de gastos, nos forçaria a enfrentar uma vez mais a ameaça de calote daqui a seis meses. Em outras palavras, não resolve o problema.
Primeiro, uma ampliação do teto da dívida pode não ser suficiente para evitar o rebaixamento do crédito e o aumento das taxas de juros que os americanos teriam de pagar como resultado disso. Sabemos o que devemos fazer para reduzir nossos déficits; não faz sentido colocar a economia em risco empurrando o problema para o futuro.
Mas há ainda um perigo maior contido nessa abordagem. Com base no que vimos nas últimas semanas, sabemos o que esperar daqui a seis meses. A Câmara dos Deputados vai se recusar mais uma vez a evitar o calote a menos que os demais aceitem sua abordagem somente de cortes. Mais uma vez, vão se recusar a pedir aos americanos mais ricos a abrir mão de suas isenções ou deduções fiscais. Novamente vão exigir cortes severos em programas como o Medicare. E mais uma vez, a economia ficará cativa, a menos que consigam o que querem.
Essa não é a maneira de governar o maior país do planeta. É um jogo perigoso que nunca jogamos, e não podemos nos arriscar a jogar agora. Não quando o emprego e a subsistência de tantas famílias estão em jogo. Não podemos permitir que o povo americano se transforme em dano colateral da guerra política de Washington.
O Congresso agora tem uma semana para agir, e ainda há caminhos a trilhar. O Senado apresentou um plano para evitar o calote, com um pagamento inicial para redução do déficit e a garantia de não termos de passar por tudo isso novamente em seis meses.
Penso que é uma abordagem bem melhor, embora uma séria redução do déficit ainda exigiria que enfrentássemos os duros desafios da concessão de benefícios e da reforma tributária. De qualquer forma, disse aos líderes dos dois partidos que devem apresentar nos próximos dias um acordo justo que possa ser aprovado nas duas Casas do Congresso e que eu possa assinar. Tenho confiança que podemos conseguir esse acordo. Apesar de nossas discordâncias, os líderes republicanos e eu encontramos pontos em comuns anteriormente. E acredito que um número suficiente de membros dos dois partidos colocarão, no final das contas, a política de lado e nos ajudarão a avançar.
Percebo que muitos dos novos parlamentares e eu não concordamos em muitas questões. Mas todos nós fomos eleitos por alguns dos mesmos americanos por algumas das mesmas razões. Sim, muitos querem que o governo comece a viver dentro de seus recursos. E muitos estão fartos de um sistema no qual o jogo parece voltado contra os americanos da classe média, a favor da minoria composta pelos mais ricos. Mas vocês sabem do que as pessoas estão fartas acima de tudo?
Estão fartas de uma cidade em que acordo se tornou uma palavra feia. Trabalham o dia todo, muitos se esforçando muito apenas para colocar comida na mesa. E quando esses americanos chegam em casa à noite, exaustos, e assistem às notícias, tudo o que veem é o mesmo circo partidário confuso em Washington. Eles veem líderes que não parecem se reunir para fazer o que devem com a finalidade de tornar a vida só um pouquinho melhor para os americanos comuns. Ficam ofendidos com isso. E têm toda a razão.
O povo americano pode ter votado por um governo dividido, mas não votou por um governo problemático. Portanto, peço a todos vocês que se façam ouvir. Se querem uma abordagem equilibrada para redução do déficit, comuniquem isso a seu congressista. Se acreditam que podemos resolver esse problema por meio de um acordo, enviem essa mensagem.
Os Estados Unidos, afinal das contas, sempre foram uma grande experiência em acordos. Como uma democracia formada por todas as raças e religiões, onde todas as crenças e pontos de vista são bem-vindos, colocamos à prova do tempo e novamente a proposição no âmago de nossa fundação: que de muitos formamos um só. Nós nos envolvemos em debates intensos e apaixonados sobre as questões diárias, mas, desde a escravidão até a guerra, desde liberdades civis até questões de justiça econômica, tentamos viver de acordo com as palavras escritas um dia por Jefferson: “Cada homem não pode ter todas as coisas à sua maneira — sem essa disposição mútua, somos indivíduos isolados, e não uma sociedade.”
A História está cheia de casos de pessoas que se atêm a ideologias rígidas e se recusam a ouvir aqueles que discordam delas. Mas não são esses os americanos de que nos lembramos. Lembramo-nos dos americanos que colocaram o país acima de si próprios e deixaram de lado descontentamentos pessoais por um bem maior. Lembramo-nos dos americanos que mantiveram este país unido durante seus momentos mais difíceis; que deixaram de lado seu orgulho e seu partido para formar uma união mais perfeita.
São esses de quem nos lembramos. É assim que precisamos ser agora. O mundo todo está observando. Portanto, vamos aproveitar este momento para mostrar por que os Estados Unidos da América ainda são a maior nação do planeta — não somente porque podemos ainda manter nossa palavra e cumprir nossas obrigações, mas porque podemos ainda nos unir como uma única nação.
Obrigado, Deus os abençoe e abençoe os Estados Unidos da América.