Notícias das Américas
Avanço no Haiti é lento, mas real
9 de janeiro de 2011
Artigo por Kenneth H. Merten, Embaixador dos EUA no Haiti, publicado no Washington Post
Quando cheguei ao Haiti como embaixador, o desemprego grassava, o governo não conseguia fornecer serviços básicos, como educação e assistência médica, e apenas 12% da população tinha acesso à eletricidade. E isso foi em agosto de 2009 – meses antes do terremoto devastador que atingiu o país há quase um ano.
Os 35 segundos de terror que o Haiti sofreu na terça-feira, 12 de janeiro, causaram 230 mil mortes e centenas de milhares de feridos, deixaram cerca de 2 milhões de pessoas desabrigadas, dizimaram a economia e exacerbaram muitos dos problemas que a nação já enfrentava. O Haiti também perdeu 30% de seus servidores públicos civis e todos, exceto um, dos principais edifícios do governo.
Conforme disse o presidente Obama, foi como se os Estados Unidos "em um terrível instante, perdessem cerca de 8 milhões de pessoas; ou como se um terço do nosso país – 100 milhões de americanos – de repente ficassem sem casa, sem alimentos e sem água".
Atualmente, os Estados Unidos permanecem comprometidos em ajudar a construir um Haiti mais próspero e estável. Como muitos dos parceiros internacionais do Haiti, estamos fornecendo mais de US$ 400 milhões em recursos para assistência humanitária visando construir as bases de um desenvolvimento de longo prazo, bem como US$ 1,15 bilhão prometido na conferência dos doadores de março de 2010, para ajudar na reconstrução. Nossos esforços são parte de um programa de reconstrução coordenado internacionalmente que engloba inovação para restaurar a economia do Haiti, que antes do terremoto passou por vários anos consecutivos de crescimento.
A Comissão Interina para a Reconstrução do Haiti (CIRH), copresidida pelo primeiro-ministro Jean-Max Bellerive e por Bill Clinton, garante que os projetos de ajuda e desenvolvimento sejam coordenados e sequenciados, para que não se construam "pontes para lugar nenhum". Os países-membros, do Canadá e Brasil à França e Venezuela, bem como as instituições-membros, tais como as Nações Unidas e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, estão comprometidos em ajudar o Haiti a construir um futuro melhor. Diferentemente de esforços anteriores para reconstruir o país, a CIRH também inclui representantes do governo, do setor privado e da sociedade civil do Haiti.
O governo dos EUA está também colocando em operação os serviços especializados de várias agências, ao fazermos investimentos direcionados para agricultura e segurança alimentar, projetos de infraestrutura e energia e programas de governança e de segurança.
Adotamos também a inovação. Telefones celulares permitiram que os americanos fizessem doações para os esforços emergenciais e de recuperação do Haiti – mais de US$ 35 milhões, em parcelas de US$ 10,00 – e eles vão empoderar os haitianos. Trabalhando com a Fundação Bill e Melinda Gates, estamos oferecendo incentivos em dinheiro para estimular a concorrência no setor privado do Haiti para levar serviços bancários à população por meio de seus telefones celulares. Nesta semana, concedemos um prêmio de US$ 2,5 milhões para a primeira empresa a lançar um serviço bancário por celular.
Os haitianos são muito empreendedores. Apenas alguns dias após o terremoto, vi cabines de loteria, salões de beleza e até cinemas nos campos. E, desde então, as empresas foram reabertas e outras estão em processo de abertura. Mas a maioria dos empreendedores não tem meios para rastrear seu dinheiro ou colocá-lo em algum lugar seguro. Serviços bancários por celular são apenas o início de inovações que poderão melhorar a vida de milhões no Haiti.
Sabemos que o progresso nem sempre é visível e entendemos a frustração das pessoas com o ritmo da reconstrução. Mas o progresso – embora não tanto como precisamos nem tão rápido como queremos – está presente. O governo do Haiti empenhou-se em uma comunicação proativa e um esforço de mitigação de inundações antes da temporada de chuvas no ano passado, e isso levou à resposta internacional ao Furacão Tomas em novembro. Os cientistas haitianos do Ministério de Saúde Pública e População identificaram o cólera assim que a doença apareceu, e o ministério coordenou a resposta internacional ao surto. Um componente importante dessa resposta é informação sobre saúde pública e higiene, e os anúncios do serviço público do ministério – com frequência dirigidos às crianças que os recitam palavra por palavra com orgulho sempre que alguém passa por elas – estão sempre presentes no rádio.
Da nossa parte, os Estados Unidos empregaram 350 mil pessoas em programas de dinheiro por trabalho, que estimularam a economia. Investimos também em iniciativas agrícolas, ajudando a aumentar a produção agrícola em cerca de 75% sobre a colheita do ano anterior em algumas áreas. E temos sido um agente essencial nos esforços para remoção dos escombros. O progresso é gradual, mas assim como muitos na Embaixada dos EUA, tenho observado avanços a cada dia no meu caminho para o trabalho – edifícios arruinados são demolidos, depois os escombros são retirados das áreas, que são transformadas em canteiros de obras. O trabalho continua.
Governos, organizações multilaterais e o setor privado estão colaborando para casar o dinheiro para o desenvolvimento com investimento privado a fim de criar empregos permanentes. O Departamento de Estado assinou dois acordos com o governo do Haiti, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e dois dos maiores fabricantes de roupas da Coreia para explorar a possibilidade de construir um parque industrial que produziria dezenas de milhares de empregos permanentes, bem como moradia permanente para milhares de haitianos. Durante meus três encargos diplomáticos aqui, tenho observado a importância da criação de empregos para o Haiti, e esses tipos de acordos me deixam otimista.
Temos pela frente uma longa e difícil jornada, e agora fazemos uma pausa para chorar os mortos. Mas renovamos nosso compromisso com os que sobreviveram, ajudando a construir um Haiti mais próspero e estável e o futuro que o povo deseja.
