notas à imprensa
Discurso do Presidente Obama no Parlamento Britânico
25 de maio de 2011
CASA BRANCA
Escritório do Secretário de Imprensa
25 de maio de 2011
PRONUNCIAMENTO DO PRESIDENTE NO PARLAMENTO
Westminster Hall
Londres, Reino Unido
15h47 (horário da Grã-Bretanha)
PRESIDENTE: Muito obrigado. Obrigado. (Aplausos.)
Meu lorde chanceler, sr. presidente da Casa, sr. primeiro-ministro, meus lordes e membros da Câmara dos Comuns:
Tive poucas honras maiores do que esta oportunidade de me dirigir à Mãe dos Parlamentos no Westminster Hall. Disseram-me que os últimos três oradores aqui foram o Papa, Sua Majestade a Rainha e Nelson Mandela – o que representa um padrão muito elevado ou o início de uma piada muito engraçada. (Risos.)
Venho aqui hoje para reafirmar uma das mais antigas e mais fortes alianças jamais conhecidas no mundo. Há muito tempo dizem que os Estados Unidos e o Reino Unido desfrutam de um relacionamento especial. E, como compartilhamos também um corpo de jornalistas especialmente atuante, esse relacionamento é com frequência analisado e superanalisado pelo menor sinal estresse ou tensão.
Todos os relacionamentos, é claro, têm seus altos e baixos. Certamente, o nosso começou com o pé esquerdo em uma pequena disputa sobre chá e impostos. (Risos.) É possível também que tenha havido alguma mágoa quando a Casa Branda foi incendiada durante a Guerra de 1812. (Risos.) Mas, felizmente, desde então tem sido uma navegação tranquila.
O motivo dessa estreita amizade não tem a ver apenas com a nossa história comum, o nosso legado comum; os nossos laços de idioma e cultura; nem mesmo com a forte parceria entre nossos governos. Nosso relacionamento é especial por causa dos valores e das crenças que uniram nossos povos ao longo dos tempos.
Séculos atrás, quando reis, imperadores e senhores da guerra dominavam grande parte do mundo, foram os ingleses que primeiro explicitaram os direitos e as liberdades do homem na Carta Magna. Foi aqui, neste mesmo salão, onde pela primeira vez o Estado de Direito foi concebido, os tribunais foram criados, as disputas foram resolvidas e os cidadãos passaram a escolher seus líderes.
Com o tempo, o povo desta nação travou uma longa, e às vezes sangrenta, batalha para expandir e garantir sua liberdade da coroa. Impulsionados pelos ideais do Iluminismo, acabaram redigindo uma Declaração de Direitos inglesa e investiram o poder de governar em um parlamento eleito que se encontra reunido aqui hoje.
O que teve início nesta ilha tornou-se uma inspiração para milhões de pessoas em todo o continente europeu e no mundo inteiro. Mas talvez ninguém tenha recebido maior inspiração com essas noções de liberdade do que seus colonos agitadores do outro lado do Atlântico. Como disse Winston Churchill, a "…Carta Magna, a Declaração de Direitos, o Habeas Corpus, o tribunal de júri e o direito consuetudinário inglês têm sua expressão mais famosa na Declaração de Independência dos Estados Unidos".
Para nossas duas nações, viver de acordo com os ideais consagrados nesses documentos fundamentais às vezes foi difícil, tem sido sempre um trabalho em andamento. O caminho nunca foi perfeito. Mas, por meio das lutas dos escravos e dos imigrantes, das mulheres e das minorias étnicas, das antigas colônias e das religiões perseguidas, aprendemos melhor do que a maioria que o anseio por liberdade e por dignidade humana não é um anseio inglês, nem americano, nem ocidental – é universal e pulsa em todos os corações. Talvez seja por isso que poucas nações defendem com mais firmeza, falam mais alto e lutam com mais garra com mais ardor para defender os valores democráticos no mundo todo do que os Estados Unidos e o Reino Unido.
Somos os aliados que desembarcaram em Omaha e Gold, que se sacrificaram lado a lado para libertar um continente do avanço da tirania e ajudar a prosperidade a florescer dos escombros da guerra. E, com a fundação da Otan – uma idéia britânica – passamos a fazer parte de uma aliança transatlântica que garantiu nossa segurança por mais de meio século.
Junto com nossos aliados, conquistamos uma paz duradoura após uma guerra fria. Quando a Cortina de Ferro se abriu, expandimos nossa aliança para incluir as nações do Centro e do Leste Europeu e construímos novas pontes com a Rússia e os antigos países da União Soviética. E quando houve o conflito nos Bálcãs, trabalhamos juntos para manter a paz.
Hoje, após uma década difícil, que começou com guerra e acabou em recessão, nossas nações chegaram mais uma vez a um momento decisivo. Uma economia global que esteve à beira da depressão está agora estável e se recuperando. Após anos de conflito, os Estados Unidos retiraram cem mil soldados do Iraque, e o Reino Unidos retirou suas tropas, e nossa missão de combate naquele país chegou ao fim. No Afeganistão, quebramos o ímpeto do Taleban e em breve começaremos a transição para a liderança afegã. Após quase dez anos desde o 11 de Setembro, desbaratamos redes terroristas e deferimos um imenso golpe contra a Al Qaeda com a morte de seu líder – Osama bin Laden.
Juntos, superamos grandes desafios. Mas, ao iniciarmos este novo capítulo da nossa história compartilhada, profundos desafios se apresentam diante de nós. Em um mundo no qual a prosperidade de todas as nações está agora indissoluvelmente interligada, uma nova era de cooperação é necessária para garantir o crescimento e a estabilidade da economia global. À medida que novas ameaças se espalham pelas fronteiras e pelos oceanos, precisamos desmantelar as redes terroristas e deter a disseminação de armas nucleares, enfrentar as mudanças climáticas e combater a fome e as doenças. E, à medida que a revolução ganha as ruas no Oriente Médio e no Norte da África, o mundo inteiro tem interesse nas aspirações de uma geração que anseia pela determinação de seu próprio destino.
Esses desafios chegam em um momento em que a ordem internacional já foi reformulada para um novo século. Países como China, Índia e Brasil apresentam um crescimento avassalador. Nós devemos ver com satisfação esse desenvolvimento, porque ele tirou milhões de pessoas da pobreza no mundo todo e criou novos mercados e novas oportunidades para nossos próprios países.
Contudo, no decorrer dessa rápida mudança, tornou-se moda em alguns lugares questionar se a ascensão dessas nações implicará no declínio da influência americana e europeia no mundo. Talvez, o argumento continua, essas nações representem o futuro, e a época da nossa liderança tenha passado.
O argumento está errado. O momento para a nossa liderança é agora. Foram os Estados Unidos e o Reino Unido e nossos aliados democráticos que moldaram um mundo no qual novas nações pudessem emergir e as pessoas pudessem prosperar. E mesmo com mais nações assumindo as responsabilidades da liderança global, nossa aliança continuará indispensável para a meta de um século mais pacífico, mais próspero e mais justo.
Em uma época em que as ameaças e os desafios exigem que as nações trabalhem em harmonia umas com as outras, continuamos a ser os principais catalisadores da ação global. Em uma era definida pelo rápido fluxo do comércio e das informações, é a nossa tradição de livre mercado e a nossa abertura, fortificadas pelo nosso compromisso com a segurança básica dos nossos cidadãos, que oferecem a melhor chance de prosperidade que seja ao mesmo tempo forte e compartilhada. Com milhões de pessoas ainda tendo seus direitos humanos básicos negados por serem quem são, ou em razão de suas crenças ou do tipo de governo sob o qual vivem, somos as nações com maior disposição para defender os valores da tolerância e da autodeterminação que leva à paz e à dignidade.
No entanto, isso não significa que podemos nos dar ao luxo de ficar imóveis. A natureza da nossa liderança deverá mudar com os tempos. Como eu disse na primeira vez que estive em Londres como presidente, para a cúpula do G-20, foram-se os dias em que Roosevelt e Churchill podiam se sentar em uma sala e resolver os problemas do mundo apreciando um conhaque – embora esteja certo de que o primeiro-ministro Cameron concordaria que em certos dias nós dois bem que poderíamos tomar um drinque. (Risos.) Neste século, nossa liderança conjunta precisará de novas parcerias, de se adaptar às novas circunstâncias e precisaremos nos reformular para atender às demandas de uma nova era.
Isso começa com a nossa liderança econômica.
A ideia central de Adam Smith continua a ser uma verdade hoje: Não há maior gerador de riquezas e inovações do que um sistema de livre empresa que liberta todo o potencial de cada homem e de cada mulher. Foi esse o conceito que levou à Revolução Industrial que começou nas fábricas de Manchester. Foi esse o conceito que levou ao despertar da Era da Informação surgida nos parques tecnológicos do Vale do Silício. É por isso que países como China, Índia e Brasil estão crescendo tão rapidamente – porque com altos e baixos, eles estão se encaminhando para adotar os princípios baseados no mercado que os Estados Unidos e o Reino Unido sempre adotaram.
Em outras palavras, vivemos em uma economia global que é em grande parte uma criação nossa. E, hoje, a competição por melhores empregos e indústrias favorece países que adotam o livre pensamento e olham para o futuro; países com os cidadãos mais criativos, inovadores e empreendedores.
Isso dá a nações como os Estados Unidos e o Reino Unido uma vantagem inerente. Pois, desde Newton e Darwin a Edison e Einstein, de Alan Turing a Steve Jobs, nós lideramos o mundo em nosso compromisso com a Ciência e a pesquisa de ponta, a descoberta de novos medicamentos e novas tecnologias. Educamos nossos cidadãos e capacitamos nossos trabalhadores nas melhores faculdades e universidades do planeta. Mas, para manter essa vantagem em um mundo que é mais competitivo que nunca, teremos de redobrar nossos investimentos em Ciência e Engenharia e renovar nossos compromissos nacionais com a educação da nossa força de trabalho.
Nesses últimos anos, fomos também lembrados que os mercados às vezes podem falhar. No último século, nossas nações puseram em vigor marcos regulatórios para lidar com essas falhas de mercado – salvaguardas para proteger o sistema bancário após a Grande Depressão, por exemplo; regulamentações criadas para evitar a poluição do nosso ar e da nossa água durante os anos 1970.
Mas, na economia de hoje, essas ameaças provenientes das falhas de mercado não podem mais ser contidas dentro das fronteiras de um país. As falhas de mercado podem se tornar globais e virais, exigindo respostas internacionais.
Uma crise financeira que começou em Wall Street infectou quase todos os continentes, razão pela qual precisamos continuar trabalhando em fóruns como o G-20 para implementar regras do jogo globais, a fim de evitar futuros excessos e abusos. Nenhum país pode escapar dos perigos da poluição por carbono, é por essa razão que precisamos dar continuidade ao que foi conquistado em Copenhague e Cancún para deixarmos aos nossos filhos um planeta mais seguro e mais limpo.
Ademais, mesmo quando o livre mercado funciona como deveria, nossos dois países sabem que, por mais responsáveis que sejamos em nossa vida, tempos difíceis ou má sorte, uma doença debilitante ou uma demissão pode atingir qualquer um de nós. E, assim, parte da nossa tradição comum se expressou na convicção de que todos os cidadãos merecem uma medida básica de segurança – assistência à saúde se ficar doente, seguro desemprego se perder o emprego, uma aposentadoria digna após uma vida inteira de muito trabalho. Esse compromisso com os nossos cidadãos também foi a razão da nossa liderança no mundo.
E, agora, após passarmos por uma terrível recessão, nosso desafio é cumprir essas obrigações e ao mesmo tempo garantir que não estamos consumindo – e, portanto, sendo consumidos por – um nível de dívida que poderia minar a força e a vitalidade das nossas economias. E isso demandará escolhas difíceis e demandará caminhos diferentes para ambos os nossos países. Mas já enfrentamos tantos desafios antes e sempre conseguimos equilibrar a necessidade de responsabilidade fiscal com as responsabilidade que temos uns com os outros.
E acredito que poderemos fazer isso de novo. Ao fazermos isso, os sucessos e os fracassos do nosso passado podem servir de exemplo às economias emergentes – que é possível crescer sem poluição; que a prosperidade duradoura não vem daquilo que uma nação consome, mas daquilo que ela produz e dos investimentos que faz em seu povo e na infraestrutura.
E assim como precisamos liderar em prol da prosperidade dos nossos cidadãos, precisamos também salvaguardar a sua segurança. Nossas duas nações sabem o que significa confrontar o mal no mundo. Os exércitos de Hitler não parariam sua matança se não tivéssemos lutado contra eles nas praias e em terra firme, nos campos e nas ruas. Não devemos jamais esquecer que nada sobre a nossa vitória era inevitável naquela guerra terrível. A guerra foi vencida graças à coragem e ao caráter do nosso povo.
Precisamente porque estamos dispostos a suportar seu ônus, sabemos bem o custo da guerra. E é por isso que construímos uma aliança forte o suficiente para defender este continente e dissuadir nossos inimigos. Em sua essência, a Otan está baseada no conceito simples do Artigo Quinto: que nenhuma nação da Otan terá de se defender sozinha; que os aliados defenderão uns aos outros, sempre. E por seis décadas, a Otan tem sido a aliança de maior êxito na história da humanidade.
Hoje nos confrontamos com um inimigo diferente. Terroristas tiraram a vida de nossos cidadãos em Nova York e em Londres. E, embora a Al Qaeda pretenda uma guerra religiosa com o Ocidente, devemos lembrar que eles mataram milhares de muçulmanos – homens, mulheres e crianças – no mundo todo. Nossas nações não estão e nunca estarão em guerra com o Islã. Nossa luta tem como objetivo vencer a Al Qaeda e seus aliados extremistas. Não cederemos nesse esforço, como Osama bin Laden e seus seguidores já aprenderam. E como lutamos contra um inimigo que não respeita as leis da guerra, continuaremos a nos ater a um padrão mais alto – honrando nossos valores e o Estado de Direito e o processo legal justo que tão ardentemente defendemos.
Por quase uma década, o Afeganistão foi uma frente central desses esforços. Durante todos esses anos, vocês, o povo britânico, foram um aliado importante, juntamente com tantos outros que lutaram ao nosso lado. Juntos, devemos prestar uma homenagem a todos os nossos homens e nossas mulheres que serviram e se sacrificaram durante esses vários últimos anos – porque eles fazem parte de uma fila ininterrupta de herois que suportaram o fardo mais pesado em nome das liberdades que desfrutamos. Por causa deles, vencemos o ímpeto do Taleban. Por causa deles, capacitamos as forças de segurança do Afeganistão. E por causa deles, estamos agora nos preparando para virar uma pagina no Afeganistão, fazendo a transição para a liderança afegã. E durante essa transição, buscaremos a paz duradoura com aqueles que renunciarem à Al Qaeda, respeitarem a Constituição afegã e depuserem as armas. E vamos garantir que o Afeganistão não se torne jamais um refúgio seguro para o terrorismo – mas, ao contrário, se torne um país forte, soberano e capaz de andar com as próprias pernas.
De fato, nossos esforços neste início de século nos levaram a um novo conceito para a Otan, que nos dará as capacidades de que necessitamos para enfrentar novas ameaças: ameaças como terrorismo e pirataria, atentados cibernéticos e mísseis balísticos. Mas uma Otan revitalizada continuará ligada àquela visão original de seus fundadores, permitindo-nos reunir ações coletivas em defesa do nosso povo, enquanto avança com base na crença mais ampla de Roosevelt e Churchill de que todas as nações têm direitos e responsabilidades e que todas as nações compartilham um interesse comum em uma arquitetura internacional que mantenha a paz.
Temos também o interesse comum de acabar com a disseminação de armas nucleares. No mundo todo, nações estão trancafiando materiais nucleares para que nunca caiam em mãos erradas – por causa de nossa liderança. Da Coreia do Norte ao Irã, mandamos a mensagem de que aqueles que desprezarem suas obrigações enfrentarão consequências – razão pela qual os Estados Unidos e a União Europeia há pouco aumentaram suas sanções contra o Irã, em grande parte devido à liderança do Reino Unido e dos Estados Unidos. E, ao exigirmos que outros países prestem contas, cumpriremos nossas obrigações acordadas no Tratado de Não Proliferação e lutaremos por um mundo sem armas nucleares.
Temos um interesse comum na resolução de conflitos que prolongam o sofrimento humano e ameaçam desmembrar regiões inteiras. No Sudão, após anos de guerra e milhares de mortos, pedimos tanto ao Norte quanto ao Sul que recuem do limiar da violência e escolham o caminho da paz. E no Oriente Médio, permanecemos unidos em apoio a um Israel seguro e uma Palestina soberana.
E temos um interesse comum no desenvolvimento que faça avançar a dignidade e a segurança. Para isso, devemos deixar de lado o impulso de olhar para as partes empobrecidas do mundo como um local para se fazer caridade. Em vez disso, devemos fortalecer as mesmas forças que permitiram ao nosso povo prosperar: Devemos ajudar os famintos a se alimentar, os médicos que cuidam dos doentes. Devemos apoiar os países que combatem a corrupção e permitir ao seu povo inovar. E devemos fazer avançar a verdade de que nações prosperam quando permitem que mulheres e meninas realizem todo o seu potencial.
Fazemos isso porque acreditamos não apenas nos direitos das nações, mas também nos direitos dos cidadãos. Esse é o farol que nos guiou durante nossa luta contra o fascismo e nossa batalha crepuscular contra o comunismo. E, hoje, essa ideia está sendo testada no Oriente Médio e no Norte da África. País após país, as pessoas se mobilizam para se libertarem do jugo de um punho de ferro. E, embora esses movimentos por mudança tenham apenas seis meses, nos já os vimos antes – do Leste Europeu às Américas; da África do Sul ao Sudeste Asiático.
A história nos conta que a democracia não é fácil. Anos passarão antes que essas revoluções cheguem à sua conclusão, e haverá dias difíceis ao longo do caminho. O poder raramente desiste sem luta – principalmente em lugares onde há divisões de tribos e divisões de seitas. Sabemos também que o populismo pode dar voltas perigosas – do extremismo daqueles que usam a democracia para negar os direitos das minorias, ao nacionalismo que deixou tantas cicatrizes neste continente no século 20.
Mas não se iludam: o que vimos, o que estamos vendo, em Teerã, na Tunísia e na Praça Tahrir é um anseio pelas mesmas liberdades que consideramos corriqueiras em nossos países. Foi uma rejeição à noção de que as pessoas em certas partes do mundo não querem ser livres ou têm de aceitar a democracia por imposição. Foi uma rejeição à visão de mundo da Al Qaeda, que reprime os direitos das pessoas, sujeitando-as assim à pobreza e à violência perpétuas. Que não haja dúvida: os Estados Unidos e o Reino Unido estão abertamente do lado daqueles que anseiam por liberdade.
E agora devemos mostrar que honraremos aquelas palavras com ações. Isso significa investir no futuro dessas nações que fazem a transição para a democracia, a começar pela Tunísia e pelo Egito – aprofundando laços de comércio; ajudando-os a demonstrar que a liberdade traz prosperidade. E isso significa apoiar os direitos universais – impondo sanções àqueles que buscam a repressão, fortalecendo a sociedade civil, apoiando os direitos das minorias.
Fazemos isso sabendo que o Ocidente precisa vencer a suspeita e a desconfiança entre muitos no Oriente Médio e no Norte da África – desconfiança que tem suas raízes num passado difícil. Durante anos, enfrentamos acusações de hipocrisia daqueles que não desfrutam das liberdades que ouvem dizer que temos. E assim, para eles, devemos declarar abertamente que, sim, temos interesses duradouros na região – combater o terrorismo, às vezes com parceiros que podem não ser perfeitos; proteger contra interrupções do suprimento mundial de energia. Mas devemos também insistir que rejeitamos como falsa a escolha entre nossos interesses e nossos ideais; entre estabilidade e democracia. Porque nosso idealismo tem raízes em fatos históricos – que a repressão oferece apenas a falsa promessa de estabilidade, que as sociedades são mais bem sucedidas quando seus cidadãos são livres e que as democracias são os nossos aliados mais próximos.
É essa verdade que guia nossas ações na Líbia. Teria sido fácil dizer no início da repressão na Líbia que aquilo não era da nossa conta – que a soberania de uma nação é mais importante que o massacre de civis dentro de suas fronteiras. Esse argumento tem peso para alguns. Mas nós somos diferentes. Nós assumimos uma responsabilidade maior. E, embora não possamos acabar com todas as injustiças, existem circunstâncias que ultrapassam os limites da nossa prudência – quando um líder está ameaçando massacrar seu povo, e a comunidade internacional clama por ação. É por esse motivo que evitamos um massacre na Líbia. E não descansaremos até que o povo da Líbia esteja protegido, e a sombra da tirania seja dissipada.
Procederemos com humildade e com o reconhecimento de que não podemos controlar todos os resultados no exterior. No fim, a liberdade deve ser conquistada pelas próprias pessoas, e não imposta de fora. Mas podemos e devemos estar ao lado daqueles que lutam por ela. Porque sempre acreditamos que o futuro dos nossos filhos e netos será melhor se os filhos e os netos de outras pessoas forem mais prósperos e mais livres – das praias da Normandia aos Bálcãs e à Benghazi. Esses são os nossos interesses e os nossos ideais. E se deixarmos de cumprir esse compromisso, quem ocuparia o nosso lugar e que tipo de mundo deixaríamos?
Nossa ação – nossa liderança – é essencial à causa da dignidade humana. Portanto, devemos agir – e liderar – com confiança nos nossos ideais e fé inabalável no caráter do nosso povo, que nos enviou a todos aqui hoje.
Porque há uma qualidade final que creio torna os Estados Unidos e o Reino Unido indispensáveis neste momento da história. E é assim que nos definimos como nações.
Ao contrário da maioria dos países do mundo, não definimos a cidadania com base em raça ou etnia. Ser americano ou britânico não é pertencer a um determinado grupo; é acreditar em determinados conjuntos de ideais – os direitos das pessoas, o Estado de Direito. É por isso que temos uma diversidade incrível dentro das nossas fronteiras. É por isso que, neste instante, há pessoas no mundo todo que acreditam que se forem para os Estados Unidos, se forem para Nova York, se vierem para Londres, se trabalharem duro, poderão jurar fidelidade à nossa bandeira e denominarem a si mesmos americanos. E se eles vierem para a Inglaterra, poderão iniciar uma vida nova e poderão cantar God Save the Queen [Deus Salve a Rainha] como qualquer outro cidadão.
Sim, nossa diversidade pode levar a tensões. E, em toda a nossa história, houve calorosos debates sobre imigração e assimilação em nossos dois países. Mas, por mais difíceis que sejam esses debates, fundamentalmente reconhecemos que nossa herança multicultural é uma força enorme – que em um mundo que só vai se tornar menor e mais interconectado, o exemplo das nossas duas nações diz ser possível que as pessoas se unam pelos seus ideais, em vez de se dividirem pelas suas diferenças; que é possível que os corações mudem, e velhos ódios fiquem para trás; que é possível aos filhos e às filhas de antigas colônias sentarem-se aqui como membros deste grande Parlamento, e ao neto de um queniano que foi cozinheiro no Exército britânico estar diante de vocês como presidente dos Estados Unidos. (Aplausos.)
É isso que nos define. É por isso que os jovens nas ruas de Damasco ou do Cairo ainda clamam pelos direitos que os nossos cidadãos desfrutam, mesmo que algumas vezes eles se oponham às nossas políticas. Como duas das mais poderosas nações da história do mundo, devemos nos lembrar sempre de que a verdadeira fonte da nossa influência não é apenas o tamanho da nossa economia ou o alcance das nossas Forças Armadas ou as terras que conquistamos. São os valores que jamais deveremos deixar de defender no mundo – a ideia de que todos os seres são dotados pelo Criador de certos direitos que não podem ser negados.
São esses valores que forjaram nossos laços no calor da guerra – laços que se manifestaram pela amizade entre os nossos dois maiores líderes. Churchill e Roosevelt tinham suas diferenças. Eram argutos observadores dos pontos cegos e das falhas um do outro, se não sempre das suas próprias, e eram obstinados quanto à habilidade que tinham para refazer o mundo.
Mas o que uniu o destino desses dois homens naquele momento particular da história não foi apenas o mesmo interesse em vencer no campo de batalha. Foi uma crença compartilhada no triunfo final da liberdade humana e da dignidade humana – uma convicção de que temos influência na maneira como essa história termina.
Essa convicção continua viva ainda hoje em nossos povos. Os desafios que enfrentamos são enormes. É duro o trabalho que temos pela frente. Mas nós superamos uma década difícil, e sempre que os testes e as provações pela frente possam parecer demasiados ou muito grandes, vamos nos lembrar dos exemplos desses dois líderes e das palavras que Churchill pronunciou no dia em que a Europa foi libertada:
"Nos longos anos pela frente, não apenas o povo desta ilha, mas do mundo, onde quer que o pássaro da liberdade cante no coração humano, olhe para trás, para o que fizemos, e eles dirão: ‘não se desespere, não se renda... marche em frente.’"
Com coragem e determinação, com humildade e com esperança, com fé na promessa do amanhã, vamos marchar em frente juntos, reunindo aliados em torno da causa de um mundo mais pacífico, mais próspero e mais justo.
Muito obrigado. (Aplausos.)
FIM – 16h21 (horário da Grã Bretanha)